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Artigos de Opinião

Diário de um Killer Sentimental, Luís Sepúlveda

E quase tudo o Covid levou. Vidas viradas do avesso, e outras, infelizmente, perdidas à custa do vírus que parou o mundo em 2020. Entre elas, a do autor Luís Sepúlveda, versátil escritor e ativista chileno com fortes ligações à comunidade portuguesa.

Por entre os mais de 20 livros editados do autor, vir-me-ia a cair nas mãos uma cópia do “Diário de um Killer Sentimental”, datado de 1996. Se achei o título um pouco desencorajador pelo seu clichê aparente? Bastante. Mas cedo aprendemos a não julgar os livros pelas capas, ou neste caso, pelo título.

Numa leitura que recomendo, principalmente, a jovens adultos ou a quem esteja a tentar estabelecer um ritmo de leitura, o autor perfila-nos um assassino profissional através dos seus problemas. Sumariamente avança pelas regras do trabalho e pelas proezas do nosso personagem principal antes do cenário criado.

Começando em Madrid, o killer, encarregue de um trabalho do qual, como sempre, obteve poucas informações, começa a afeiçoar-se à sua vítima, enquanto percorre o seu monólogo interno sobre a forma como se deixou levar para uma relação, o que no seu ramo era proibitivo e o porquê de ter que matar este próximo alvo.

Todas as informações eram-lhe passadas por uma chamada, e sempre sem contacto direto com alguém, a não ser os taxistas, que se amontoam e se confundem por entre os países atravessados no decorrer das curtas 78 páginas da edição realizada pelo jornal Público.

Esperava ansiosamente por se reencontrar com a sua “gata” (namorada) em Paris, porém é apanhado de surpresa quando esta lhe revela que, durante umas férias no México conheceu um novo amor, e que não voltaria a saber o que fazer com esse dilema. Primeiro prego cravado no nosso personagem: a partir daqui, intensifica o diálogo interno que rapidamente muda a forma como olhamos para este assassino privado. Quando ao começo apresentava-se como alguém confiante, imbatível e seguro de tudo aquilo que podia, e tinha que fazer, mais tarde passava a entrar numa espiral hedonística, com ódio e autocomiseração à mistura, que eram notáveis pelas de conversas com o homem do espelho: fisicamente iguais, mas alguém que o personagem principal não conseguia reconhecer.

Quando não estava a fumar, ou a beber (ou com uma prostituta) o personagem contemplava uma fotografia do seu alvo, tentando encontrar semelhanças entre as suas vidas. Pelo caminho recebe também uma chamada da sua felina favorita, que arrependida queria regressar, algo ao qual o nosso herói nem deu resposta.

Porém, o homem que era inato nas regras de um assassino errou: esteve em contacto direto com a sua vítima e confessou-lhe para que é que fora contratado, deixando o ilustre homem escapar.

Depois da queda abrupta de tudo aquilo que compunha a sua vida privada, o killer é obrigado a retirar-se, isto era se queria permanecer entre o mundo dos vivos. Contudo, e antes de sair de um mundo profissional que nem lhe permitia parar para pensar, o killer precisava de acabar a sua última missão.

Num final digno de uma curta-metragem num estilo noir, o personagem principal descobre que a pessoa com quem a sua namorada se havia envolvido era o mesmo alvo que tinha que abater, terminando a história com o assassinato dos dois seres que lhe trouxeram o caos à vida.

O que se deve de reter do curto policial de Sepúlveda é que o mundo não espera por ninguém (nem por um assassino que é o melhor na sua profissão). Mesmo sem nunca dar nomes a nenhum dos personagens, é interessantíssimo como é que num livro tão curto o autor consegue vincar, de forma concisa, marcas das distintas personalidades. Aparentemente, até o pior dos assassinos tem sentimentos.

texto por: Nuno Alves

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