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A Plataforma do Pandemónio e a arte d’o desassossegar a cidade dos arcebispos

A Plataforma do Pandemónio surge como um agregador artístico e agente cultural no coração da cidade de Braga e desde as suas primeiras aparições que nos fez sentir o compasso acelerado da ansiedade cultural, que transporta, e que faz tremer com a cidade dos arcebispos.

Por entre eventos, pequenas ações e até uma revista – PULSAR – que circula regularmente por entre o público e agentes locais, esta agregação artística não parece desmoralizar e prepara-se, agora, para abraçar o INDIEGESTO, um ciclo de 4 concertos a serem recebidos num auditório muito reservado: o Auditório S. Frutuoso (bem no centro histórico).

Reunimo-nos, hoje, com as pessoas que tentam organizar a balbúrdia. Vamos a isto!

Olá! Como estão? Em poucas palavras, como é que descrevemos a Plataforma do Pandemónio a quem nos segue?
Plataforma do Pandemónio: É um desafio, asseguro: já passamos por tanto nestes dois anos de existência, já evoluímos tanto, que fica difícil descrever o que somos hoje sem falar desse trajecto! Bom, a Plataforma surge como isso mesmo: uma plataforma de artistas em profundo confinamento, dispostos a associarem-se à distância para procurarem estímulos à criação através da influência mútua. Éramos muito pouquinhos nessa altura, mas à medida que o mundo foi retomando a actividade, ficou nítido que havia uma vontade muito forte em crescer. Então aí viramos colectivo: as premissas base eram acolher quem quer que estivesse disposto a construir algo em conjunto, com um enfoque particular na criação artística e multidisciplinar (porque desde sempre que agregamos artistas de diferentes disciplinas artísticas) e tentar levar a experimentação artística o mais longe possível junto do próprio público. Recentemente, assumimo-nos como uma comunidade artística: hoje mobilizamos mais de uma centena de artistas e somos já cerca de 50 associados, entre entusiastas e profissionais da cultura, a trabalhar diariamente para esbater essa fronteira que separa e divide o mundo entre uns e outros.

A Plataforma do Pandemónio surge quando, como e porquê?
Plataforma do Pandemónio: Nascemos em Abril de 2020, em plena pandemia, apenas como resgate possível à desesperança dos tempos de confinamento. Em Setembro do mesmo ano, constituímo-nos associação sem fins lucrativos e mesmo mantendo o foco na criação artística multidisciplinar, vimo-nos desde logo “empurrados” para a programação: como Braga enfrenta alguns desafios muito particulares em termos da implementação da sua estratégia cultural e como está em plena efervescência com a sua candidatura a Capital Europeia da Cultura, foi a altura certa para alavancar este projeto que, na verdade, nunca foi algo planeado e perspetivado por nenhum de nós. Acontecemos, eu costumo dizer. E acontecemos porque havia – e há – uma carência grande de estruturas que acolham artistas, que queiram pensar na atividade cultural como algo despretensioso e acessível a qualquer pessoa, mas também com espírito de sacrifício e abnegação suficientes para enfrentar os desafios que atravessamos hoje no sector cultural.

Que tipos de artistas se podem e devem associar à vossa comunidade?
Plataforma do Pandemónio:
Na verdade, nós tentamos acolher toda a gente, artistas ou entusiastas. A triagem que fazemos, se é que se lhe pode chamar assim, tem muito que ver com as expectativas e objetivos de cada um. Ou seja: quem se junta a nós são pessoas com um profundo sentido de coletivo e de comunidade. Isso é alicerce fundamental e desmotiva logo muita gente! 🙂 O ego – algo que nos artistas acaba por ser não raras vezes um fator de desistência – é algo que procuramos desconstruir e nem toda a gente está disponível para isso. Temos duas modalidades de associados que compele as pessoas a percorrer um trajeto connosco: podemos começar como não-efetivo, para conhecer o projeto por dentro, contando com diferentes incentivos (descontos, bilhetes grátis, momentos de fruição e convívio) e à medida que cada um vai encontrando o seu lugar, pode tornar-se efetivo, contribuindo com projetos e criações e integrando as diferentes equipas de produção e coordenação. Mas somos uma comunidade, ou seja, não agregamos só profissionais da cultura: a nossa ambição é transformar vidas e isso passa, no nosso entender, por nutrir o artista em potência que todos temos dentro.

Nos próximos dias 11 e 12 de novembro de 2022, o INDIEGESTO, aterra na cidade de Braga – muito por vossa causa – e traz consigo um cartaz delicioso. O que é que não podemos perder?
Plataforma do Pandemónio: Eu diria que tudo! 🙂 O INDIEGESTO surge fruto do protocolo de dinamização cultural que firmamos com o Município de Braga para 2022 e representou desde logo um desafio: como articular um ciclo de concertos com um encontro de ilustração? A nossa premissa foi procurar projetos que também transportassem uma componente literária – como é o caso do concerto do Luca Argel, que estreia connosco um novo concerto bem intimista – ou que, de alguma forma, pintassem diferentes universos. Fomos buscar a Arianna fruto – há que dizê-lo – de um outro projeto bracarense que louvamos: o Porta 253. Essa equipa inacreditável deu-nos a conhecer o trabalho dela e ficamos imediatamente apaixonados: o indie feminino está vivo e recomenda-se! Aníbal Zola e André Júlio Turquesa são já amores antigos, que há muito tempo queríamos trazer a Braga com o destaque que merecem. Em cima deste cartaz, temos uma patine daquilo que vem sendo a nossa marca: descobrir um espaço bem exclusivo da cidade (o belíssimo Auditório S. Frutuoso) e uma festa muito grande, feita da congregação das boas energias dos nossos associados e de todas as pessoas que gravitam em nosso redor.

Planos…surpresas…até ao final do ano de 2022, ainda temos? E o que é podemos esperar da Plataforma do Pandemónio para 2023?
Plataforma do Pandemónio:
 Temos, temos sim! Até ao final do ano contamos lançar as nossas novas Tertúlias Literárias – num formato diferente, fruto da parceria com a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva – e ainda o PULSAR – um podcast, que reúne os artistas e autores da PULSAR para dissecar o que é isso da criatividade. Continuamos com os nossos Laboratórios Criativos – um por mês, sempre diferente e sempre aberto a todas as faixas etárias – e além da exposição que temos patente até 05 de Dezembro na Casa do Professor, teremos uma outra fruto da Oficina de Artes Gráfica que estamos a desenvolver no âmbito do projeto HumanizArte da OIKOS, que inaugura a 13 de Dezembro na BLCS. Teremos ainda dois Movimentos Presente, os nossos encontros informais de poesia, no Café RUM by Mavy e ainda uma última edição dos MIA – Mercados Incríveis de Arte. Por isso até ao final do ano ainda estaremos em alta rotação. Para 2023 perspetiva-se também muita coisa boa: o regresso das nossas Jazz Nights, em formato alargado, a estreia duma nova criação (PARTITURAS, uma performance de música e dança) e o lançamento do nosso Estúdio de Criação são as mais imediatas. Teremos ainda, se os ventos soprarem a nosso favor, o lançamento de dois programas de mediação muito ambiciosos e a estreia duma outra criação de Música Teatral e a circulação do PULSAR – um showcase por diferentes estruturas europeias, além de diferentes projetos de curadoria. Um verdadeiro Pandemónio!

Para finalizar da melhor forma: que amor é este?
Plataforma do Pandemónio:
Este amor é força motriz do mundo. É um amor pelo Outro, pelo que nos une e conecta, pelo que nos faz mais humanos e por poder construir uma comunidade mais crítica, mais atuante, mais culta e mais feliz. No fundo, é um amor desapegado e despretensioso, mas que transporta a vontade de querer transformar o mundo, um livro, um quadro, um concerto, uma peça, uma imagem de cada vez. 

entrevista realizada por Teresa Montez, via e-mail, em novembro de 2022.

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