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Artigos de Opinião

Porque é na palavra que está a história: Witness to history (1929-1969) de Charles E. Bohlen

Descrevendo a vida de um diplomata durante o período da segunda guerra mundial e guerra fria, Bohlen carrega-nos por momentos diversos, desde jogar golfe durante uma clausura no Japão, às conversas e perceções com líderes como Roosevelt, Churchill, De Gaule ou Stalin

Charles E. Bohlen, nascido em 1904, foi um diplomata e embaixador norte-americano. Até aí mantem-se uma apresentação limpa e simples. “Chip”, como era tratado pelos amigos próximos (e até Presidentes), foi dos primeiros diplomatas norte-americanos a fazer um curso de especialização, tendo participado numa turma de especialização soviética, de onde participara também George F. Kennan, e onde aprenderam a dominar a língua russa, tal como a sua cultura.

Após períodos de aprendizagem (um pouco boémios) que levaram Chip à volta da Europa de Leste, arranja uma primeira função na Embaixada norte-americana em Moscovo, onde presenciou a construção da Casa Spaso, antigo edifício da embaixada norte-americana onde mais tarde se veio a descobrir material de espionagem soviético instalado.

Com o livro lançado em 1973 pela editora W. W. Norton, Charles Bohlen, com o apoio editorial de Robert H. Phelps, guia o leitor numa viagem sobre o progresso da sua carreira e, consequentemente, pelos desenvolvimentos mundiais, onde não tendo um papel crucial, participou como intérprete presidencial e conselheiro em eventos como as Conferências de Yalta, que mais tarde quase lhe tiraram o cargo de Embaixador americano em Moscovo.

Apesar de ter que se ler qualquer autobiografia com uma lente de suspeição, o autor leva-nos por detalhes interessantíssimos da vida diplomática e até conflitos causados com Kruschkev sobre excessos na vodka, sendo os assuntos mais importantes acompanhados por excertos de telegrafia, cartas, fotografias e apontamentos do autor contemporâneos a esses momentos. A partir do momento que somos convidados a alguns dos momentos hilariantes, que seguem a seriedade da carreira de Bohlen, fica difícil não soltar uma gargalhada ao imaginar um grupo de diplomatas americanos em isolamento na embaixada durante o ataque a Pearl Harbor, que para se entreterem criaram um circuito de golfe, que para além de quebrar janelas, levou-os à proeza de acertar com a bola na cabeça de um diplomata alemão, proximamente ligado ao movimento nazi.

Aquando da sua seriedade, acompanha também remorsos do autor, como o de ter falhado para com Kennedy ao se ter afastado de o aconselhar para eventos como a Invasão da Baía dos Porcos ou dos mísseis apontados a solo americano em Cuba.

Retratando os seus sucessos e fracassos, Charles E. Bohlen deixa-nos com uma autobiografia de 542 páginas sobre a sua carreira que ainda hoje possui tanto um valor histórico como proporciona um grau de interesse para qualquer aficionado da II Guerra Mundial ou Guerra Fria.

texto por: Nuno Alves

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