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Não é por acaso que o nosso amor rima com Tremor

festival tremor

A magia das internets fez com que viajássemos até à bonita ilha de São Miguel, nos Açores, para uma troca de palavras com a organização do Tremor

Entre 5 e 9 de abril de 2022, o festival mais amado das ilhas, estará de volta com uma vontade renovada de criar um mapa de experiências musicais que desafiem novas perspetivas sobre o território e a identidade açoriana.

Desde sua primeira edição que o Tremor sempre teve uma identidade própria, bem marcada e diferente de todos os outros festivais em Portugal. Foi sempre a vossa ideia, criar algo completamente diferente do que já se fazia?
Aquilo que é hoje o Tremor resulta de uma evolução e aprendizagem que fizemos desde a primeira edição do festival que, recordo, teve lugar apenas em Ponta Delgada. Nessa altura, fomos movidos pelo desafio do Luís Banrezes para criar um evento que trouxesse algum movimento ao centro da cidade, que estava a passar por uma fase de abandonamento e desertificação. Aconteceu que, após essa primeira edição, abriram os voos low cost para o arquipélago e a realidade da cidade mudou, começou a movimentar-se em torno da vaga turística que essa abertura permitiu. Nessa altura, sentimos que devíamos direccionar o Tremor noutro rumo e aí surge a ideia de tirarmos partido daquilo que a ilha tinha de melhor para oferecer: o seu património natural e edificado. O que começou por ser um alargamento dos palcos do festival para incluir trilhos e espaços exteriores da ilha de São Miguel, tem vindo a evoluir para a inclusão daquelas que são as suas gentes e o seu património cultural imaterial. Tem sido muito gratificante para nós explorarmos essa ideia de como a música e arte pode criar novos diálogos com os locais onde acontece, criando experiências diferenciadoras e, em certa medida, únicas.

O Festival começa em 2014 e desde então tem vindo sempre a crescer sendo já um nome incontornável no panorama em Portugal. Como olham para esse sucesso, e quais acham que são as razões do mesmo?
Ficamos naturalmente contentes porque é sempre melhor ver que as nossas ideias correm bem e têm espaço para crescer. Temos conseguido, ao longo de cada edição, solidificar o lugar do festival no quadro de eventos do país, mas também ver crescer o número de público fiel que, de dentro e de fora da ilha, partilham da nossa vontade de estar aqui esta semana. É importante para nós que este crescimento seja feito assim de forma equilibrada, porque o festival quer ser, na primeira linha, um evento para os micaelenses e açorianos.

Sobre as razões do sucesso, diria que há uma parte que temos de entregar de forma directa à ilha e à forma como a mesma tem conseguido preservar e manter a sua beleza natural. A restante parte passará, acreditamos nós, pelo desenvolvimento de uma proposta de programa que se pauta pela diversidade, pelo desafio e pela surpresa.

Como foi no início pensar e promover um festival nos Açores (que em 2014 não seria tão acessível como agora), e se voltassem a 2014 que conselhos dariam a vocês mesmo no início do Tremor?
Colocar bilhetes em pré-venda. 🙂 Nessa primeira edição não sabíamos se as pessoas iam aparecer na véspera de tudo arrancar. Aliás, tínhamos até organizado um warm-up onde não apareceu ninguém e pensamos logo que ia ser um desastre, mas não, as pessoas apareceram e as coisas correram bem.

Quais são os maiores desafios de momento?
O principal desafio do Tremor é crescer sem com isso impactar negativamente a ilha. Como promotores sentimos a necessidade de agir sobre o território com o respeito que ele merece, promovendo um uso que incite à preservação e não à sua delapidação.

De onde surgiu a ideia de incluir espaços diferentes e não convencionais durante o festival(como a estufa ou a igreja)?
Numa conversa numa esplanada de um café ao largo da Lagoa das Sete Cidades. Falava-se sobre a forma como poderíamos dar um passo em frente e diferenciador para o festival, olhámos à volta e dissemos: Ora bem, a base está feita, é esta beleza natural, nós agora só temos de a pintar com propostas musicais e artísticas que as complementem. Daí evoluis para essa tentativa de descoberta de espaços que possam ser interessantes dar a conhecer às pessoas.

Qual é o critério que usam para escolher esses espaços?
São vários, lotação, acessibilidade e de que forma podem resultar, enquanto enquadramento/cenário, para a atividade que queremos propor.

Como é que a comunidade nos Açores tem reagido ao Tremor e ao seu crescimento? Sentem apoio ou ainda alguma desconfiança?
Não sentimos que tenha havido, em nenhum momento, desconfiança da parte da comunidade local. Naturalmente, que os anos iniciais são mais desafiantes, porque são espaço para criarmos relações com as pessoas e instituições da região, sedimentarmos o nosso trabalho e conseguirmos efectivar (e provar) as mais valias do trabalho que fazemos. Atualmente, esta relação é muito positiva e traduz-se, não só na participação enquanto público, mas na extrema generosidade com que diferentes grupos locais se mostram disponíveis para trabalhar connosco nos projectos de residências artísticas que propomos anualmente. Uma prova disso está, por exemplo, no alinhamento deste ano, nas propostas da iniciativa Receitas do Baú (que vai organizar jantares em casa e em espaço público na Vila de Rabo de Peixe), que foi uma ideia proposta pela própria comunidade ao festival.

A preocupação de incluir essa mesma comunidade, a arte e cultura locais é sempre uma preocupação e algo planeado? Ou acontece naturalmente?
É uma das linhas de programação de sempre do festival. Criar palco para as bandas e projectos locais é uma das missões do Tremor, assim como a de abrir oportunidades de criação e contacto artístico para populações e artistas. A nossa vontade é manter e aprofundar estas colaborações, integrando sempre os nossos já residentes projectos com a Escola de Música de Rabo de Peixe e a Associação de Surdos de São Miguel, e, a cada ano, explorar novas ideias e possibilidades.

Tentam sempre que as pessoas para além da música e dos concertos façam turismo na ilha e aproveitem o Tremor para conhecer mais dos Açores?
Acaba por estar implícito na própria proposta do festival, que permite que as pessoas vão descobrindo espaços da ilha e algumas das suas tradições, como foi por exemplo o trabalho na edição de 2019 entre os ZA! E as Despensas de Rabo de Peixe. Acho que o próprio alinhamento do festival permite que as pessoas tenham espaço para o fazer de forma livre, já que não programamos atividades de manhã à noite todos os dias.

De que forma é processada a escolha artística e o lineup do cartaz? Procuram sempre que ele seja o mais multicultural e eclético possível?
Procuramos que o mesmo se paute por ideias de diversidade, acomodando tanto bandas que estejam já numa fase mais estabelecida das suas carreiras, como é o caso, deste ano, do Rodrigo Amarante, com projetos mais emergentes que nos entusiasmam, novas tendências que importem ser trazidas para o centro do palco, e, claro, projetos musicais açorianos.

Como surge a ideia e qual a importância de abrirem portas para residências artísticas?
Duas razões essenciais: a vontade de criar momentos únicos, colocando artistas de diferentes universos a criarem peças exclusivas para apresentar no festival, e o objectivo de criar momentos que permitissem um envolvimento mais directo e imediato da população local (artística e não artística) na programação do festival. A integração destes projectos, a par de permitir desenhar um cartaz composto por experiências únicas e com uma identidade muito própria, permite que oTremor expanda a sua acção às práticas artísticas comunitárias, algo que, enquanto agentes culturais, consideramos ser importante para a criação de novas formas de coesão social, novos espaços de encontro para as populações e novos sentimentos de pertença.

Que pontos de programação destacam para esta edição?
A parceria com o Terra Incógnita, que permitiu expandir o número de criações neste registo de caminhada performativa, havendo este ano três opções disponíveis. A adaptação do conceito do Tremor Todo-o-Terreno para a inclusão de percursos cicláveis que era uma ideia que já tínhamos há algum tempo e que acreditamos vai dialogar muito bem com a performance da Puta da Silva. Toda a programação e actividades pensadas para o dia 7 de abril na Ribeira Grande, que a par dos concertos de Ece Canli + Odete, Maria Reis, a Noite Príncipe especial, entre outros, vai ter o extra dos jantares em casa de habitantes locais. O regresso ao formato multi-venue e ao “dia maior” de sábado, com um alinhamento que percorre a cidade de Ponta Delgada com 12 atividades, desde os concertos do Rodrigo Amarante, do Sessa, D’As Docinhas ou do Alabaster DePlume, até às apresentações dos trabalhos Atlas São Miguel e ao Mini-Tremor.

Qual a evolução que esperam para o festival nos próximos anos?
Solidificar o lugar do Tremor como um festival de experiências, onde a música é o ponto de partida para novas formas de estarmos com os outros.

E Que Amor é Este?
Não sei se é amor, mas a equipa do Tremor tem uma relação muito forte com os mergulhos no “pesqueiro” em Ponta Delgada.

Entrevista de Mikael Gonçalves com a organização do Festival Tremor a propósito da conceção da edição do ano 2022. Edição Teresa Montez.
@queamoreeste 2022

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