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Artigos de Opinião

Divide e conquista: uma carta aberta aos Idles

São, precisamente, três horas e três minutos da manhã. Sentei-me em frente ao computador, novamente, porque precisava de escrever isto: se ainda não conhecem Idles, este é o sinal para o fazerem.

Quando, de peito cheio, afirmo que o punk não está morto, refiro-me a todo o movimento de músicos que insiste em quebrar o sistema. Por todo o Mundo, com idiomas diferentes, mas com o mesmo desejo de destruir as limitações impostas pelo Estado. A atitude, da qual o punk surgiu, está presente em todos eles.

Lembro-me de ter lido, há uns tempos atrás, uma entrevista do guitarrista dos Buzzcocks, Steve Diggle, que descrevia o movimento punk como “um aumento da consciencialização do sonambulismo controlado, vivido em sociedade”, e onde acrescentava: “o punk é um ataque aos sentidos e existirá sempre alguém, que irá acordar e responder de alguma forma.” Acredito, fielmente, que é neste conceito que os Idles se centram – num movimento que procura encontrar um novo espaço para todos. Há anos que eu não ouvia uma banda com um sentido político-social tão apurado quanto o deles…e que bem me fez.

Consigo descrever, exatamente, quando foi o meu primeiro contacto com a banda e o que se passou desde então. Podia ter sido mais um dia de trabalho de escritório, normal, ou não fosse o Pedro ter chegado e colado o vídeo da performance da “Danny Nedelko”, em Glastonbury (edição de 2019), na frente dos meus olhos. O concerto tinha acontecido há poucos dias, se não mesmo há poucas horas (não me recordo deste pormenor) e se a mim, tudo me marcou através daquele ecrã, imagino a quem teve o prazer de a presenciar. Claro, que estou a tocar num ponto sensível, quando falo desta música em concreto: o choro de Joe Talbot, pode abrir corações, mas a verdade é que toda a coordenação e a clara boa disposição vivida naquela banda, conseguem apaixonar os mais rebeldes. Tocam com tanta energia, força e paixão que é difícil não nos envolvermos com a rebelião. Mais tarde, ao assistir a todo o concerto, a cada música, o Joe insistia em relembrar o público sobre o quão frágeis somos, enquanto seres humanos, e que acima de tudo é necessário fazer com que o amor próprio se torne numa necessidade de primeiro grau.

O que me fez apaixonar por Idles é exatamente o sentimento “terra a terra” que transmitem e… as letras. Tenho de falar sobre a composição e conjugação de todos aqueles ideais. São brilhantes. Ok, sim. A sonoridade é incrível e o Jon Beavis é provavelmente um dos melhores bateristas da atualidade, o que torna o compasso ritmado das músicas uma das melhores coisas que ouvi nos últimos anos, mas… AS LETRAS! Saúde mental, pobreza, o trabalho árduo pela sustentação das pequenas cidades, o fanatismo, a masculinidade tóxica, a gestão de expectativas das atitudes humanas. Tanto em tão pouco tempo! Necessitamos de mais pessoas a falar sobre coisas reais e palpáveis, f*da-se!

Afinal de contas, estamos em 2020, o chamado “futuro” chegou. As guerras acabaram, o racismo não existe e os avanços tecnológicos são tantos e em diversas áreas, que a necessidade de ter um grupo de pessoas cansadas das “merdas do dia-a-dia” (note-se o meu tom irónico), a gritarem verdades, já não faz sentido nenhum, certo? Não. Claro, que não. Infelizmente continuamos a cometer os mesmos erros do passado e a confiar nos mesmos tiranos cheios de carisma que fazem questão de marcar presença no nosso meio, de tempos a tempos.

Sorte de quem vive na mesma época que os Idles, que acompanhados pelas pontuais letras, de um instrumental que bebe da simplicidade do punk, das guitarras distorcidas que atingem um ponto sensorial e da bateria frenética, nos trazem de volta à realidade e não nos deixam esmorecer nas trivialidades da vida.

Infelizmente, ainda não tive a oportunidade de os ver ao vivo. Fico-me pelos vídeos, da era “social media”, que me aquecem o coração – afinal, no peito de um punk também bate algo. Há mensagens que têm de ser transmitidas sem rodeios e os Idles, na sua magnética explosão de amor, são os influenciadores que estamos a precisar.

Nota: este desabafo foi escrito no final de 2019 ou por volta dos inícios de 2020.

Imagens: Loud and Quiet

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